Enganou-se? Menina, não seja tão astuta a ponto de levar racionalmente as coisas que não condizem com a oração. Sorria vendo seu melhor filme sozinha, mesmo que se lembre daquele sujeito a cada mudança de luz, sem problemas.
25/03/12
CDM.
Enganou-se? Menina, não seja tão astuta a ponto de levar racionalmente as coisas que não condizem com a oração. Sorria vendo seu melhor filme sozinha, mesmo que se lembre daquele sujeito a cada mudança de luz, sem problemas.
25/03/12
CDM.
E se a saudade se acostumar a ser costume, estamos todos perdidos. E se a tristeza lhe vier abrindo um sorriso manso, não se aconchegue. E se o coração jurar parar de bater, prenda essas malditas borboletas e siga. Depois de um tempo, não se sabe mais o que havia ali, e o que haverá. Numa cor qualquer não se sabe mais acolher, e nem se escolhe mais do que sentir falta. Tudo se acumula e faz falta de uma só vez, porque tudo lembrava você. Naquelas tardes chuvosas em que os seus pensamentos ficam ali parados sob o que deveria ter feito, aceito e assistido. O que deveria ter cozinhado, sem que se sentisse constrangido. Era do constrangimento que eu gostava mais. Do rubor. Onde a culpa já não lhe atingia, não havia fins nem começos. Cheguei a sentir falta de não sentir falta, pois não haveria mais, em tempo algum, sentido maior do que a falta de sentir-lhe os dedos costurando-se aos meus.
Se o que vier a lhe consumir for a falta, e da pauta da vida só lhe restar melancolia, não há nada certo. Não haverá durante um longo tempo. Não haverá nem por um momento sequer um suspiro sóbrio. Divinamente constrangedor. Deixe-se a deriva enquanto o céu não ganha cor.
17/04/12
CDM.
“Loucura de sonho naquele silêncio alheio!…
A nossa vida era toda a vida… O nosso amor era o perfume
do amor… Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos
nós… E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa
carne, que não éramos uma realidade…
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer… Éramos
aquela paisagem esfumada em consciência de si própria…
E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão
— assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo
bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera.
. .
Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-
nos a querer soluçar… Ali aquela paisagem tinha os
olhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero de
ser… Cheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou
ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e
no exílio dos lagos… E nós, caminhando sempre e sem o
saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à
beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado
e absorto…
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem
nós, que por ali íamos, ali estávamos… Porque nós não éramos
ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma.. . Não tínhamos
vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e
rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora
passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo de
uma palmeira.”
Trecho de O Eu profundo e os outros Eus - Fernando Pessoa
(via reviv3r)
Não dormira naquela noite em que as conclusões do mundo se opuseram como um soco sobre o seu estomago frágil, apesar de você negá-lo. Ainda divirto-me ao lembrar da perdição que encontrava sob os seus olhos escuros quando ouvia o que lhe bem diziam, o que querias ouvir. Sempre fora de estômago frágil, meu amor, apesar de tamanha negação, quase agressiva, das suas palavras sobre mim. No fundo isso lhe despejava um líquido amargo e altamente enjoativo a fazendo tremelicar sempre que as decisões, singelas e obscuras, deveriam ser tomadas. Pois, segundo você, esse tal sentimentalismo era balela barata da mídia, querendo nos corromper à paixão emburrecedora e cheia de culpas ilegíveis. O mundo separa as pessoas, ou elas mesmas se repelem cada vez mais diferentes e sarcásticas, cada vez menos comuns. Aqueles ordinários é que são felizes, dizia você enquanto me olhava com seus persuasivos olhos castanhos, pois nada sabem e ainda aceitam a suposta normalidade do mundo. Adoram esses que lhes tomam a chance de decidir e se conformam com a falta de mais uma dificuldade nesta vida ameaçadora. Você era frágil.
Eu que sei. Desde que te vira afogando as verdades do mundo em palavras que nem mesmo você sabia de onde vinham. Queria ser mais que um número e menos que a esperança de estar de pé amanhã. Mas a esperança é que definia esse seu tamanho mediano, refletia sob os seus ombros um significado incomum para a palavra força. Sempre soube desde que lhe disseram: ou vai ou ficar, e você ficou pelo meio do caminho a refletir os prós e contras da decisão que aquele homem tomou por si mesmo, pois já o havia feito se lhe consultar. Eu soube como você se sentiu quando vi, daqueles seus olhos persuasivos, umas gotas densas de sentimentalismo barato se esvaindo como quem flutua num lago morno. Chocado ou até mesmo conformado, eu soube da sua necessidade infundada de sentir dor. Pois mesmo que a decisão lhe fosse permitida, você permaneceria ali parada pensando que nunca quisera mesmo esse sentimentalismo.
Toda essa tolice corrompeu o mais bonito em você, a forma como curvava os lábios que quase chegava a imperceptível verdade do “não é nada”. A forma como o seu estômago ia enfraquecendo ao perceber que aquilo de mais monótono tendia a se esvaziar por um tempo. Tempo demais, dizia você, ao pegar mais uma colher daquele seu doce melado. Mas você estava aprendendo a se acostumar com essa massa insignificante de tempo que se transpunha antes das novas mudanças ensurdecedoras. E também se acostumava à rapidez com que o mundo se interligava e você, ao ver tamanhas mudanças mundanas, se via ali parada naquela esquina, ficando para trás daqueles ombros largos e daquela história muda. Ou ficara para trás ou, desvencilhando-se dele passara a mais digna das formas de amor, oportunamente recíproco.
12/05/12
CDM.
Pois veja bem,
Quem lhe quer bem,
Até cem
Contará antes de lhe ferir.
Pois lhe ver sorrir,
Cara menina,
Não se troca nem por um milhão de libras.
E se a saudade lhe dolorir sem mais,
Deixe partir esse tolo affair
Pois de mal me quer,
Já se perderam flores demais.
06/05/12
CDM.